9 de março de 2011

Segurança na Saúde

Este artigo é uma indicação do Dr. Francisco Gondin, anestesiologista do Rio de Janeiro e seguidor do blog Anestesia Segura. O artigo foi publicado originalmente na seção Opinião do site do jornal O Globo.

Segurança na Saúde

WALTER MENDES e WILSON SHCOLNIK

Há uma crescente preocupação com a qualidade dos serviços oferecidos na área da saúde, em virtude de erros continuamente propagados pela mídia. O debate sobre erros na área de saúde e a segurança dos pacientes tem como referência o relatório do Instituto de Medicina da Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos da América, intitulado ”Errar é humano” (“To err is human“), de 1999.

A segurança dos pacientes tem merecido a atenção da Organização Mundial da Saúde. Erros representam também um grave prejuízo financeiro. No Reino Unido e na Irlanda do Norte, o prolongamento do tempo de permanência no hospital devido a erros custa cerca de dois bilhões de libras ao ano, e o gasto anual do Sistema Nacional de Saúde com questões litigiosas associadas a eventos adversos é de 400 milhões de libras. Nos EUA, os custos anuais estão estimados entre 17 e 29 bilhões de dólares anuais.

A maioria dos erros que podem afetar os pacientes são cometidos por pessoas capazes de realizar as tarefas com segurança, que já as realizaram várias vezes no passado. Eles enfrentaram consequências pessoais significativas.

A pergunta que importa é: “Será que o erro ocorrerá de novo?” Cabem duas principais abordagens: a de caráter pessoal tem longa tradição e focaliza os erros ou violações de procedimentos por pessoas diretamente envolvidas nas operações (médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem). Ela pressupõe que esses erros são originários de processos mentais aberrantes, como esquecimento, desatenção, falta de motivação, descuido, negligência, imprudência e cansaço.

As medidas para se combater tais erros são dirigidas principalmente à variabilidade indesejável do comportamento humano. Os seguidores dessa abordagem tendem a tratar os erros como assuntos morais, assumindo que coisas ruins ocorrem com pessoas ruins. A abordagem pessoal tem sérias deficiências, e o apoio a ela não contribui para o desenvolvimento de instituições de saúde mais seguras.

Já a abordagem sistêmica parte da premissa de que seres humanos são falíveis e erros acontecem, mesmo nas melhores organizações. Os erros são considerados como consequências, ao invés de causas, não sendo atribuídos à perversidade da natureza humana. Isto inclui a recorrência de erros ocasionados por “armadilhas” no local de trabalho ou nos processos organizacionais. As medidas para evitar esses erros são baseadas na suposição de que, embora não se possa modificar a condição humana, podem-se modificar as condições nas quais os humanos trabalham. Quando acontecem, o importante não é saber quem os cometeu, mas verificar como e por que as defesas falharam.

Outro componente já bem conhecido em outras indústrias, como a da aviação e a nuclear, e tido como de fundamental importância no setor de saúde, é o “fator humano”. Não se pode esperar alto desempenho de trabalhadores da saúde provenientes de outros plantões, cansados, apressados, famintos ou estressados.

Nenhuma organização de prestação de serviços de saúde pode se excluir das iniciativas para minimizar a ocorrência de erros. Mudanças em sua cultura, estrutura e processos são condições necessárias para garantir a segurança dos clientes, dos resultados e, por que não, a sua própria existência.

Na medida em que os dados sobre erros se tornam públicos, o papel dos consumidores deverá ser de grande importância para promover mudanças de atitudes e investimentos na melhoria dos serviços. Por outro lado, é preciso que os consumidores e contratantes entendam e aprendam a valorizar os serviços que continuam investindo em qualidade e segurança.

Para que se alcance a satisfação e a confiança da sociedade é preciso adotar sistemas transparentes, abertos, onde a informação seja dividida livremente e as responsabilidades de cada parte sejam amplamente aceitas.

Encarar a questão dos erros não como uma fatalidade ou responsabilidade individual, mas como parte do planejamento dos sistemas de trabalho e exercício profissional, parece ser o melhor caminho na Saúde.

WALTER MENDES é médico e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Publica Sergio Arouca (Fiocruz/ RJ). WILSON SHCOLNIK é médico e diretor da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial.


Agradecemos a colaboração do Dr. Francisco Gondin e contamos com a participação de todos para novos conteúdos no blog Anestesia Segura!

Um comentário:

Francisco disse...

Vamos esperar o quê mais? A sociedade civil já sabe que o 'caso fortuito' não é tão fortuito assim... Há quem se responsabilizar e este quem, não é somente o médico.

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