1 de abril de 2010

2º Passo: Avaliação Pré-anestésica


Um dos pilares da avaliação pré-anestésica é o estabelecimento de uma relação de confiança entre o anestesiologista e o paciente. Para muitos pacientes o período pré-operatório é estressante e pode gerar irritabilidade, nervosismo, crises de angústia e depressão. Somam-se os medos excessivos (fobias) que podem ser relativos à cirurgia, como mutilação (câncer), cicatriz e dor (MAGALHÃES FILHO, 2006, BRAZ, 2005; BOTTOMLEY, 1997) e à anestesia (medo de não acordar, de acordar durante o procedimento, paralisias), sendo muitas vezes o medo da anestesia maior do que os sentimentos negativos oriundos do procedimento cirúrgico. Ao se defrontar com a cirurgia e a anestesia, os pacientes apresentam alterações hormonais provocadas pela ansiedade, moduladas pela avaliação cognitiva deste enfrentamento e acompanhadas de alterações fisiológicas perceptíveis (LIU, 1994).

O anestesiologista deve conduzir uma entrevista calma e organizada e mostrar ao paciente que entende suas preocupações, reafirmando que o mesmo estará continuamente monitorado por profissionais competentes e monitorização adequada. A avaliação pré-anestésica é o momento ideal para fornecer informações ao paciente referentes a tempo de jejum, preparo, tempo aproximado do procedimento, uso de monitorização e líquidos venosos, colocação de cateteres (arteriais ou epidurais) e uso de suas próprias medicações, entre outras (KARIN, 2002). Riscos, benefícios, complicações potenciais e alternativas também devem ser abordadas em uma conversa franca, exercendo a plena autonomia do paciente. São tantas informações importantes que tem sido preconizada mundialmente a entrega de informativos impressos que contemplem recomendações para os períodos pré, intra e pós-anestésico.

Além de seu componente “ansiolítico”, a avaliação pré-anestésica visa reduzir a mortalidade e morbidade relacionadas ao procedimento anestésico-cirúrgico por meio da minimização de riscos potencialmente evitáveis e do planejamento oportuno de cuidado anestésico. O anestesiologista deve ser responsável pela determinação do estado clínico do paciente, desenvolver um plano de cuidados anestésicos e explicar ao paciente ou seu responsável o plano proposto (ASA, 2002; LIGNAU, 2002).

Estas normas básicas aplicam-se a todos os pacientes que recebem cuidados prestados pelo anestesiologista. Em circunstâncias não usuais, por exemplo, em emergências, estas normas básicas podem ser modificadas. Nestas situações, as circunstâncias devem ser documentadas de maneira apropriada no prontuário do paciente.

O desenvolvimento de um plano apropriado de cuidado anestésico deve ser baseado em:

1. Revisão do prontuário do paciente
2. Avaliação clínica para:
  • Detalhar história clínica, experiências anestésicas prévias e medicações atuais/ recentes.
  • Ressaltar e estabelecer aspectos do exame físico que possam afetar decisões relacionadas ao cuidado e risco perioperatório.

3. Rever e solicitar avaliações laboratoriais, meios diagnósticos e, se necessário para a condução do procedimento anestésico, interconsulta com outro especialista.
4. Determinar e prescrever medicações pré-operatórias adequadas à condução da anestesia.

Todas estas informações devem ser registradas pelo anestesiologista na Ficha de Avaliação Pré-anestésica (APA). A Ficha de APA é um instrumento que facilita a comunicação entre a equipe de profissionais que atenderão o paciente, sendo fonte de informações para o planejamento do cuidado (LARSON, 2002).

Foi publicada em novembro de 2006 a Resolução 1802 do Conselho Federal de Medicina que dispõe sobre a prática do ato anestésico e define quais fichas são obrigatórias na documentação da anestesia e seus conteúdos:

ANEXO I. Ficha de avaliação pré-anestésica, incluindo:

a. Identificação do anestesiologista
b. Identificação do paciente
c. Dados antropométricos
d. Antecedentes pessoais e familiares
e. Exame físico, incluindo avaliação das vias aéreas
f. Diagnóstico cirúrgico e doenças associadas
g. Tratamento (incluindo fármacos de uso atual ou recente)
h. Jejum pré-operatório
i. Resultados dos exames complementares eventualmente solicitados e opinião de outros especialistas, se for o caso
j. Estado físico
k. Prescrição pré-anestésica
l. Consentimento informado específico para a anestesia

Importante salientar que o Consentimento Informado Específico da Anestesia pode estar inserido na ficha de APA ou ser um documento a parte.

Muitas vezes a realização da avaliação pré-anestésica antes do encaminhamento do paciente para a sala cirúrgica pode se tornar um desafio, já que necessita de profissionais competentes, comunicação eficaz entre setores e profissionais e uma logística eficiente, sendo que a informatização assistencial contribui de forma impactante para a melhoria da APA (EDWARD, 2010; DEXTER, 1999).

O CMS – Centers for Medicare & Medicaid Services, vinculado ao U.S. Department of Health and Human Services publicou em 4 de janeiro de 2010 um alerta: “WHAT'S NEW FOR ANESTHESIA PRACTICES IN 2010” apresentando recomendações de condutas no período perioperatório que são consensadas pela Joint Commission International (JCI).

Referências Bibliográficas:
AMERICAN SOCIETY OF ANESTHESIOLOGISTS. Task Force on Preanesthesia Evaluation. "Practice Advisory for Preanesthesia Evaluation." Anesthesiology 96 (February 2002): 485–496.
BRAZ DS, RIBAS MM, DEDIVITIS RA et al - Quality of life and depression in patients undergoing total and partial laryngectomy.Clinics, 2005;60:135-142.
BOTTOMLEY A. Psychosocial problems in cancer care: a brief review of common problems. J Psychiatr Mental Health Nurs,1997;4:323-331.
DEXTER F. Design of appointment systems for preanesthesia evaluation clinics to minimize patient waiting times: a review of computer simulation and patient survey studies. Anesth Analg. 1999 Oct;89(4):925-31.
EDWARD GM, PRECKEL B, MARTIJN BS, OORT FJ, DE HAES HC, HOLLMANN MW. The effects of implementing a new schedule at the preoperative assessment clinic. Eur J Anaesthesiol. 2010 Feb; 27(2):209-13.
KARIM, A. AND M. ESTEVE. "Specific Aspects of the Pre-Anesthesic Consultation in Patients with Cancer." [in French] Bulletin du Cancer 89 (June 2002): 612–618.
LARSON, MERLIN, MD. "Waters, Guedel, and the Pre-Anesthesic Evaluation." California Society of Anesthesiologists Bulletin 51 (January-March 2002): 69–75.
LIGNAU, W. AND H. U. STROHMENGER. "Responsibility of the Anaesthesiologist in the Preoperative Risk Evaluation." [in German] Der Anaesthesist 51 (September 2002): 704–715.
LIU, R; BARRY, J.E.; WEINMAN, J. Effects of background stress and anxiety on postoperative recovery. Anaesthesia, v. 49, n. 5, p. 382-86, 1994.
MAGALHÃES FILHO LL, SEGURADO A, MARCOLINO JAM, MATHIAS LAST. Impacto da Avaliação Pré-Anestésica sobre a Ansiedade e a Depressão dos Pacientes Cirúrgicos com Câncer. Rev Bras de Anestesiol 2006; 56: 2: 126 – 136.

Nas próximas semanas publicaremos highlights e artigos referentes à avaliação pré-anestésica e a sua importância para a segurança do paciente e dos profissionais envolvidos no seu cuidado. Fique atento!

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