22 de março de 2010

Analgesia Adequada no Pós-Operatório e Infecção Hospitalar (10º highlight - 1º Passo)


Estudos demonstram que a dor provoca alterações a nível autonômico, comportamental, imunológico e hemostático, interferindo no tempo de internação do paciente. Metanálise publicada por MORACA em 2003 incluiu estudos que demonstram que a realização de anestesia peridural associada à anestesia geral pode reduzir em até 40% o risco de infecção pulmonar no período pós-operatório de cirurgias de grande porte.

Analgesia pós-operatória
  • O estresse cirúrgico e a dor estimulam o sistema simpático na liberação de catecolaminas capazes de exercer vasoconstricção arteriolar, redução de PO2 tissular e diminuição da atividade fagocitária dos neutrófilos (WEATHERSTONE, 2003).
  • Dose e concentração adequadas de anestésico inalatório e/ou venoso reduzem indiretamente o risco de contaminação da ferida operatória por melhoria na fagocitose.
  • Por outro lado, o anestésico geral em altas concentrações pode afetar o sistema imunológico ao reduzir a fagocitose. Deve-se reduzir as concentrações de gases inalados através da combinação com opióides e, principalmente, pela combinação com anestesia peridural. Considerar a possibilidade de realizar analgesia preemptiva com opióides, AINES e/ou anestésico local (CARLI, 1989; LIU, 1995). 
  • Estudos comprovam que a anestesia espinhal com anestésico local afeta menos a resposta imunológica pós-operatória (NORTCLIFFE, 2003). 
  • A resposta metabólica mais frequente no estresse orgânico é a perda rápida e significativa de massa muscular esquelética, que compõe a principal reserva de proteína do organismo. Ainda não há evidência científica definitiva de que a atenuação do estresse acelere a cicatrização da ferida operatória (NORTCLIFFE, 2003).
  • A anestesia peridural tem se mostrado mais eficaz do que a anestesia geral em impedir a proteólise muscular pós-operatória. Também na anestesia combinada geral e peridural não houve diminuição na síntese protéica, o que valoriza esta tática anestésica na preservação da síntese de colágeno para acelerar a cura da ferida operatória (YOKOYAMA, 2003).
  • Para a analgesia pós-operatória, preferência atual no uso de anestésico local e opióides por via espinhal ou opióides, AINES (anti-inflamatórios não esteroides) por via endovenosa em dose intermitente, infusão contínua ou PCA. 
  • Considerar a possibilidade de analgesia multimodal em função de múltiplos mecanismos de ação sinérgicos. A infusão de anestésico local epidural durante a cirurgia deve continuar no período pós-anestésico por 48 horas, pois atenua a diminuição de síntese protéica muscular, além de reduzir o estresse do paciente. 
  • Injeção intra-articular de lidocaína em cirurgia ortopédica também reduz o grau de dor e aumenta o PO2 tissular com menor risco de contaminação no pós-operatório.
O adequado tratamento da dor no pós-operatório não é apenas uma questão fisiopatológica, é também uma questão ética e econômica. Melhor controle da dor evita sofrimento desnecessário, proporciona maior satisfação do doente com o atendimento e reduz os custos relacionados a possíveis complicações, que determinam maiores períodos de internação, como, por exemplo, a infecção hospitalar (PIMENTA, 2001; BEILIN, 2003).

Referências
AKCA O, MELISCHEK M, SCHECK T et al. Postoperative pain and subcutaneous oxygen tension. Lancet 1999; 354:41–42.
BEILIN B, SHAVIT Y, TRABEKIN E et al - The Effects of Postoperative Pain Management on Immune Response to Surgery. Anesth Analg, 2003; 97:822-827.
CARLI F, EMERY PW, FREEMANTLE CA. Effect of perioperative normothermia on postoperative protein metabolism in elderly patients undergoing hip arthroplasty. Br J Anaesth 1989; 63:276–282.
FERREIRA FAPB, MARIN MLG, STRABELLI TMV, CARMONA MJC - Como o Anestesiologista Pode Contribuir para a Prevenção de Infecção no Paciente Cirúrgico. Rev Bras Anestesiol 2009; 59: 6: 756-766.
LIU SS, CARPENTER RL, MACKEY DC, et al. Effects of perioperative analgesic technique on rate of recovery after colon surgery. Anesthesiology 1995; 83:757–765
MORACA RJ, SHELDON D, THIRLBY R. The role of epidural anesthesia and analgesia in surgical practice. Ann Surg 2003; 238:663.
NORTCLIFFE S-A, BUGGY D J - Implications of Anesthesia for Infection and Wound Healing Int Anesthesiol Clin 2003;41: 31-64.
PIMENTA, CAM et al. Controle da dor no pós-operatório. Rev Esc Enf USP, v. 35, n. 2, p. 180-3, jun. 2001.
SHENKIN A, NEUHAUSER M, BERGSTROM J, CHAO L, VINNARS E, LARSSON J, LILJEDAHL SO, SCHILDT B, FURST P. Biochemical changes associated with severe trauma. American Journal of Clinical Nutrition, Vol 33, 2119-2127, Copyright © 1980 by The American Society for Clinical Nutrition, Inc.
WEATHERSTONE KB, FRANCK LS, KLEIN NJ. Are there opportunities to decrease nosocomial infection by choice of analgesic regimen? Evidence for immunity and pain interactions. Arch Pediatr Adolesc Med 2003; 157:1108-1114.
YOKOYAMA M, ITANO Y, KATAYAMA H. The Effects of Continuous Epidural Anesthesia and Analgesia on Stress Response and Immune Function in Patients Undergoing Radical Esophagectomy. Anesth Analg, 2005; 101:1521-1527

O texto de hoje abordou o 10º (e último) highlight do 1º Passo da Campanha 10 Passos para a Anestesia Segura. No próximo post, traremos o resultado da enquete sobre Higienização das Mãos, disponível aqui no blog até o final do dia de hoje, finalizando assim o conteúdo sobre este 1º Passo: Higienização das Mãos e Uso de Luvas - Anestesia e Infecção Hospitalar. O 2º Passo: Avaliação Pré-anestésica passará a ser então, o tema central deste blog.

Aguardem!

Nenhum comentário:

Pesquisar neste blog

Ocorreu um erro neste gadget