28 de janeiro de 2010

Controle da glicemia - 3º highlight (1º passo: Higienização das Mãos e Uso de Luvas)

A hiperglicemia já vem sendo relacionada ao aumento da morbimortalidade e risco de infecção hospitalar há alguns anos, sendo que diversos artigos demonstram que o controle intensivo da glicemia no período perioperatório aumenta a segurança do paciente (OUATTATA, 2005; CAPES, 2000).

Segundo VANHOREBEEK, 2006 a glicemia em níveis elevados (maiores que 200mg/dl) apresenta alterações no sistema imunológico, sistema inflamatório e na cicatrização do paciente através de:
  • Redução do volume intravascular;
  • Desidratação;
  • Distúrbio eletrolítico;
  • Disfunção de glóbulos brancos;
  • Inativação de imunoglobulinas;
  • Alteração do sistema complemento;
  • Aumento da colagenase e consequente diminuição do colágeno na ferida cirúrgica.
Foi comprovado que a glicemia com taxa maior que 220mg/dl resulta em aumento de até 5,8 na taxa de infecção hospitalar. Estudo realizado por POMPOSELLI, 1998 demonstrou que um paciente que permanece por duas horas em quadro de hiperglicemia, apresenta uma disfunção dos glóbulos brancos durante semanas devido à diminuição do número total de linfócitos e desativação de imunoglobulinas pela glicosilação não enzimática e a glicosilação da fração C3 do complemento bloqueando sua ligação às bactérias.

Estudo realizado por RASSIAS em 1999 demonstrou que pacientes portadores de diabetes mellitus apresentavam neutrófilos com déficits na quimiotaxia, diminuição na capacidade de fagocitose e da função bactericida. Verificou-se também que em ambiente normoglicêmico os neutrófilos recuperavam a sua função.

Estes estudos nos ajudam a entender porque o controle da glicemia é tão importante na prevenção de infecções hospitalares em pacientes diabéticos e em não diabéticos (MAUERMANN, 2006). Metas de tratamento através do controle glicêmico intensivo devem ser estabelecidas, pois sabe-se que a insulina possui efeito anti-inflamatório em ambiente de euglicemia e a hiperglicemia é considerada um estado que favorece o processo inflamatório (HIRSCH, 2006).

Inúmeros estudos recomendam que a glicemia deva ser mantida em taxas menores que 150mg/dl após a estabilização inicial. A utilização de infusão contínua de glicose e insulina é preconizada e o monitoramento deve ser a cada 30 e 60 minutos. Após a estabilização, as taxas devem ser monitoradas a cada 4 horas. É importante não se esquecer de incluir um protocolo de suporte nutricional em conjunto com o controle glicêmico (POMPOSELLI, 1998; HIRSCH, 2006).

O controle rígido através do monitoramento e da infusão contínua de insulina mantendo a glicemia a níveis menores ou igual a 110mg/dL reduziu a mortalidade e a morbidade relacionada a sepse e falência de múltiplos órgãos em pacientes de unidades críticas por mais de 5 dias (VAN DEN BERGHE, 2001).

Continue acompanhando os 10 highlights:

1. Higienização das mãos
2. Cuidados durante acesso vascular, procedimentos invasivos e bloqueios regionais
3. Controle da glicemia
4. Controle da temperatura corporal (próximo!)
5. Manobras de ventilação e oxigenação
6. Cuidados com os equipamentos e materiais utilizados em anestesia
7. Administração de Antibióticos – dose certa, hora certa, antibiótico certo
8. Estratégias de reposição volêmica – hidratação e transfusão
9. Administração de medicamentos
10. Analgesia Adequada no Pós-Operatório

Referências:
CAPES SE, HUNT D, MALMBERG K et al. - Stress hyperglycaemia and increased risk of death after myocardial infarction in patients with and without diabetes: a systematic overview. Lancet,2000;355:773-778.
HIRSCH IB. Inpatient diabetes: review of data from the cardiac care unit. Endocr Pract. 2006;12 Suppl 3:27-34.
MAUERMANN WJ, NEMERGUT EC. The anesthesiologist’s role in the prevention of surgical site infections. Anesthesiology, 2006;105:413-421.
OUATTATA A, LECOMTE P, LE MANACH Y et al. - Poor intraoperative blood glucose control is associated with a worsened hospital outcome after cardiac surgery in diabetic patients. Anesthesiology,2005;103:687-694.
POMPOSELLI J. Early Postoperative Glucose Control Predicts Nosocomial Infection Rate in Diabetic Patients. JPEN J Parenter Enteral Nutr.1998; 22: 77-81
RASSIAS AJ, MARRIN CA, ARRUDA J et al. - Insulin infusion improves neutrophil function in diabetic cardiac surgery patients. Anesth Analg, 1999;88:1011-1016.
VAN DEN BERGHE G, WOUTERS P, WEEKERS F et al. - Intensive insulin therapy in the critically ill patients. N Engl J Med, 2001;345:1359-1367.
VANHOREBEEK I. Intensive insulin therapy in the intensive care unit: update on clinical impact and mechanisms of action. Endocrine practice: official journal of the American College of Endocrinology and the American Association of Clinical Endocrinologists 2006;12 Suppl 3():14-22.

20 de janeiro de 2010

Cuidados durante acesso vascular, procedimentos invasivos e bloqueios regionais - Continuação do 1º Passo

O primeiro highlight referente ao passo Higienização das Mãos e Uso de Luvas - Anestesia e Infecção Hospitalar foi apresentado anteriormente. Dando continuidade, a postagem de hoje aborda o segundo highlight:

2. Cuidados durante o acesso vascular, procedimentos invasivos e bloqueios regionais

Os cuidados com a assepsia e anti-sepsia durante o acesso vascular (central e intra-ósseo) e procedimentos invasivos, como bloqueios regionais (peridural, plexo, etc), devem ser padronizados na melhor prática internacional. É importante salientar que os cuidados devem ser observados não somente na inserção dos cateteres, mas na manutenção e retirada dos mesmos.

Os cocos gram-positivos são os germes mais frequentemente envolvidos em infecções do acesso vascular (Sthaphylococcus aureus, Sthaphylococci coagulase negativaS. epidermites, enterococos). Os bacilos gram-negativos estão mais relacionados à contaminação de soluções de infusão (enterobacterias, Serratia sp, Pseudomonas sp, Acinetobacter sp, Klebsiella sp). Em pacientes imunodeprimidos com cateter semi-implantável estão implicadas as micobactérias, bem como os fungos Malassezia furfur e várias espécies de cândida (nutrição parenteral prolongada) e aspergillos.

Estratégias para Prevenção de Infecções Relacionadas ao Cateter
  • Segurança e Educação Continuada: tem-se demonstrado, há duas décadas, que o risco de infecção declinou ao se seguir um padrão de cuidados assépticos, e que a inserção e manutenção de cateteres intravasculares por pessoal inexperiente aumentam o risco de colonização e infecção. A criação de “Equipes Multidisciplinares de Acesso Vascular” tem mostrado inequívoca efetividade na redução da incidência dessa complicação. Essas equipes têm como objetivo disseminar o treinamento de profissionais e a proliferação de informações quanto à manipulação de cateteres endovenosos.
  • Sítio de inserção do cateter: cateteres instalados na extremidade inferior têm maior risco de infecção que os colocados na extremidade superior. É aconselhável o uso da veia subclávia ao invés da veia jugular interna por sua menor incidência de colonização e infecção.
  • Tipo de material do cateter: cateteres de Teflon ou Poliuretano têm sido associados a complicações infecciosas mais frequentemente do que os de Polivinil ou Polietileno.
  • Higiene das mãos, técnica asséptica e uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI): as mãos devem ser lavadas com soluções anti-sépticas, conforme discutido anteriormente. O uso de EPIs como máxima barreira asséptica deve ser preconizado: paramentação com luvas, gorro, máscara e avental estéril. Óculos e protetor facial devem ser utilizados quando houver a possibilidade de respingos de sangue ou líquidos corporais potencialmente infectantes atingirem a face do profissional.
  • Anti-sepsia da pele: deve-se considerar a anti-sepsia prévia da pele com solução degermante de clorexidina. Segundo DARUICHE em 2010, deve-se usar preferencialmente a solução alcoólica de Clorexidina a 0,5%, pois a mesma apresentou em seu estudo um resultado superior à solução de Iodopovidona ou Povidona-iodo (PVPI) a 10% quanto a prevenção de infecções cirúrgicas. Para a inserção de cateter vesical deverá ser utilizada clorexidina aquosa ou PVPI tópico a 10%. O uso de PVPI isoladamente ou associado a álcool isopropílico para inserção de cateter peridural em parturientes foi estudado, e demonstrou-se que a associação de PVPI a álcool isopropílico foi mais eficiente na prevenção da recolonização da pele (BIMBACH, 2003). A utilização de campos estéreis largos deve ser preconizada para aumentar a área de segurança.
  • Sala Operatória: deve ficar fechada durante a intervenção, pois a ventilação, umidade e temperatura devem ser controladas. Deve haver ventilação com pressão positiva dentro da sala em relação aos corredores e número mínimo de pessoas presentes na sala durante o procedimento.
  • Curativo: o curativo de Poliuretano transparente e semipermeável tem como fatores positivos permitir a visualização constante do sítio de inserção, o banho do paciente sem retirá-lo e menor frequência de troca que os curativos de gaze e fita adesiva.
  • Cateteres e balonetes impregnados com anti-sépticos/antimicrobianos: seu custo adicional é compensado pela prevenção de internação prolongada devido à infecção do cateter. Não devem ser usados em pacientes com peso menor ou igual a 3kg.
  1. Clorexidina/Sulfadiazina: reduzem o risco para infecção comparado ao cateter sem impregnação.
  2. Minociclina/Rifampicina: reduzem o risco para infecção comparado ao cateter com impregnação de Clorexidina/Sulfadiazina.
  3. Platina/Prata: metais iônicos têm atividade antibacteriana.
  4. Balonetes de Prata: a prata tem atividade antimicrobiana e o balonete faz uma barreira mecânica à migração de microorganismos ao longo da face externa do cateter (Infect Control Hosp Epidemiol, 2002; O’GRADY, 2002).
É importante salientar que muitas vezes a monitorização e a terapia invasivas podem preconizar antibioticoterapia profilática. A cateterização vesical favorece invasão por gram-negativos, a IOT favorece atelectasia e pneumonia (20%) e a ponta dos cateteres intravasculares ou espinhais (50%) apresentam colonização séptica rápida, especialmente por estafilococos (CHAMBERS, 2005; JEAN, 2004).

Continue acompanhando os 10 highlights:

1. Higienização das mãos
2. Cuidados durante acesso vascular, procedimentos invasivos e bloqueios regionais
3. Controle da glicemia (próximo!)
4. Controle da temperatura corporal
5. Manobras de ventilação e oxigenação
6. Cuidados com os equipamentos e materiais utilizados em anestesia
7. Administração de Antibióticos – dose certa, hora certa, antibiótico certo
8. Estratégias de reposição volêmica – hidratação e transfusão
9. Administração de medicamentos
10. Analgesia Adequada no Pós-Operatório

Referências:
DARUICHE RO, WALL MJ, ..., ALSHARIF A, BERGER DH. Chlorhexidine-Alcohol versus Povidone-Iodine for Surgical-Site Antisepsis. N Engl J Med 2010 Jan 7 362 (1):18-26
BIMBACH DJ, MEADOWS W, STEIN DJ, MURRAY O, THYS DM, SORDILLO EM. Comparison of povidoneiodine and DuraPrep, an iodophor-in-isopropyl alcohol solution, for skin disinfection prior to epidural catheter insertion in parturients. Anesthesiology2003; 98:164-9.
CHAMBERS HF. General Principles of Antimicrobial Therapy, em: Brunton LL, Lazo JS, Parker KL – Goodman & Gilman´s The Pharmacological Basis of Therapeutics, McGraw-Hill 11th ed, 2005, N York, p 1095.
INFECT CONTROL HOSP EPIDEMIOL. 2002 Dec; 23(12):759-69. Guidelines for the prevention of intravascular catheter-related infections.
JEAN M, PAUGAM-BURTZ C. Hypothermia, sepsis, and the granulocytes: Lessons to learn beyond the cytokines, Critical Care Medicine. 2004; 32:1974-1975.
O’GRADY NP, ALEXANDER M, DELLINGER EP, GERBERDING JL, HEARD SO, MAKI DG, MASUR H, MCCORMICK RD, MERMEL LA, PEARSON ML, RAAD II, RANDOLPH A, WEINSTEIN RA. Healthcare Infection Control Practices Advisory Committee. Infect Control Hosp Epidemiol. 2002 Dec;23(12):759-69.

18 de janeiro de 2010

Indicação de artigo - Anestesia e Infecção Hospitalar

Na última publicação deste blog fizemos uma breve introdução sobre o primeiro passo da campanha Segurança no Período Perioperatório: 10 Passos para Anestesia Segura. Em resposta a esta postagem, o passo HIGIENIZAÇÃO DAS MÃOS E USO DE LUVAS – Anestesia e Infecção Hospitalar, o Dr. Florentino Fernandes Mendes gentilmente indica a leitura do seguinte artigo:

Chlorhexidine–Alcohol versus Povidone–Iodine for Surgical-Site Antisepsis
Rabih O. Darouiche, M.D., Matthew J. Wall, Jr., M.D., Kamal M.F. Itani, M.D., Mary F. Otterson, M.D., Alexandra L. Webb, M.D., Matthew M. Carrick, M.D., Harold J. Miller, M.D., Samir S. Awad, M.D., Cynthia T. Crosby, B.S., Michael C. Mosier, Ph.D., Atef AlSharif, M.D., and David H. Berger, M.D.

New England Journal of Medicine. January 7, 2010; 362:18-26. Number1

ABSTRACT
Background Since the patient's skin is a major source of pathogens that cause surgical-site infection, optimization of preoperative skin antisepsis may decrease postoperative infections. We hypothesized that preoperative skin cleansing with chlorhexidine–alcohol is more protective against infection than is povidone–iodine.

Methods We randomly assigned adults undergoing clean-contaminated surgery in six hospitals to preoperative skin preparation with either chlorhexidine–alcohol scrub or povidone–iodine scrub and paint. The primary outcome was any surgical-site infection within 30 days after surgery. Secondary outcomes included individual types of surgical-site infections.

Results A total of 849 subjects (409 in the chlorhexidine–alcohol group and 440 in the povidone–iodine group) qualified for the intention-to-treat analysis. The overall rate of surgical-site infection was significantly lower in the chlorhexidine–alcohol group than in the povidone–iodine group (9.5% vs. 16.1%; P=0.004; relative risk, 0.59; 95% confidence interval, 0.41 to 0.85). Chlorhexidine–alcohol was significantly more protective than povidone–iodine against both superficial incisional infections (4.2% vs. 8.6%, P=0.008) and deep incisional infections (1% vs. 3%, P=0.05) but not against organ-space infections (4.4% vs. 4.5%). Similar results were observed in the per-protocol analysis of the 813 patients who remained in the study during the 30-day follow-up period. Adverse events were similar in the two study groups.

Conclusions Preoperative cleansing of the patient's skin with chlorhexidine–alcohol is superior to cleansing with povidone–iodine for preventing surgical-site infection after clean-contaminated surgery. (ClinicalTrials.gov number, NCT00290290 [ClinicalTrials.gov] .)

Source Information
From the Michael E. DeBakey Veterans Affairs Medical Center and Baylor College of Medicine (R.O.D., S.S.A., A.A., D.H.B.), and Ben Taub General Hospital and Baylor College of Medicine (M.J.W., M.M.C., H.J.M.) — all in Houston; Veterans Affairs Boston Healthcare System and Boston University Medical School, Boston (K.M.F.I.); Veterans Affairs Medical Center and Medical College of Wisconsin, Milwaukee (M.F.O.); Veterans Affairs Medical Center, Atlanta (A.L.W.); and Cardinal Health, Leawood (C.T.C.), and Washburn University, Topeka (M.C.M.) — both in Kansas.

Para ler o artigo completo:

Dr. Florentino Fernandes Mendes é presidente do Comitê de Medicina Perioperatória da SBA (Sociedade Brasileira de Anestesiologia) – Gestão 2010. Doutor em Medicina — Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Professor de Anestesiologia da FFFCMPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre – RS).

Agradecemos a colaboração!

13 de janeiro de 2010

Introdução 1º Passo: HIGIENIZAÇÃO DAS MÃOS E USO DE LUVAS – Anestesia e Infecção Hospitalar

Na última postagem apresentamos o primeiro passo da campanha Segurança no Período Perioperatório: 10 Passos para a Anestesia Segura.

HIGIENIZAÇÃO DAS MÃOS E USO DE LUVAS – Anestesia e Infecção Hospitalar

Quando falamos em Segurança na Anestesia ou no Período Perioperatório sempre pensamos em eventos relacionados a óbito, consciência intra-operatória ou dificuldades de intubação. Raramente nos lembramos que a simples lavagem das mãos está correlacionada à segurança do paciente e dos profissionais de Saúde por meio da prevenção de infecção hospitalar, evento de alto impacto nas internações hospitalares, tanto relacionado ao custo quanto à qualidade de vida e evolução dos pacientes.

Em outubro de 2005 a World Health Organization (WHO) lançou o primeiro Desafio Global relacionado ao Programa Global de Segurança do Paciente, o "Clean Care is Safer Care", que tem como foco a redução de infecções relacionadas ao cuidado em Saúde. Estas infecções ocorrem em países desenvolvidos e em desenvolvimento, sendo uma das maiores causas de óbito e morbidade em pacientes hospitalizados. A intenção é promover a segurança por meio do estímulo a ações simples e de baixo custo, como a lavagem das mãos e a utilização de álcool gel, combatendo infecções de trato respiratório, circulatórias e outras. Sem falar no custo de um paciente que evolui, por exemplo, com infecção pulmonar no período pós-operatório apresenta. Quando falamos em custos, consideramos custos diretos, como internação, antibióticos, ventiladores e custos indiretos, como a perda na produção familiar, etc.

Os anestésicos gerais interferem na resposta imunológica e provocam alterações hemodinâmicas, ácido-básicas e de controle da temperatura corpórea, que podem influenciar na resposta inflamatória pós-operatória. O efetivo controle da dor também é relevante na velocidade de restauração da ferida cirúrgica, facilitando a ação dos antibacterianos por aumento da fagocitose e aumento de anticorpos, dificultando o aparecimento de resistência bacteriana. (TENSON, 2006; BEILIN, 2003; YOKOYAMA, 2005; NORTCLIFFE, 2003)

O tratamento da infecção sempre considera a bactéria, o hospedeiro e o antimicrobiano/antibiótico. A resposta do hospedeiro pode ser considerada fator de risco, pois depende do estado imunológico específico e não-específico do paciente. A imunidade específica é a memória humoral (anticorpo) e celular (linfócito T) resultante de exposição prévia. A maioria dos anestésicos diminuem a fagocitose e quimiotaxia dos polimorfonucleares, mas não afetam a produção de anticorpos. A imunidade não específica é individual e depende do polimorfonuclear e das defesas pulmonares: reflexos glóticos, células ciliadas e muco (IgA, IgG, surfactante, fibronectina).

O estado físico do paciente (hospedeiro) dimensionado pela classificação ASA (American Society of Anesthesiologists) e os extremos etários também são fatores que podem aumentar o risco à infecção em pacientes cirúrgicos. A infecção (pneumonia) é uma das maiores causas de morte do idoso por involução do timo, redução de fagocitose e hematopoiese. O recém-nato apresenta imaturidade imunológica e o prematuro de baixo peso é hipogamaglobinêmico. Pacientes portadores de diabetes mellitus e microangiopatia e aterosclerose reduzem a perfusão tissular que predispõem à infecção mista, aeróbica e anaeróbica. O fumo e a ingestão crônica de álcool também são considerados de maior risco de contaminação por falha na função imunológica.

Segundo estudos internacionais, o antibiótico é atualmente o segundo grupo de medicamentos mais utilizados nos hospitais. Nas unidades de internação como a enfermaria, a taxa de infecção oscila de 5 a 15%. Nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) é bem mais elevada (17 a 32%), sendo que os pacientes internados em unidades críticas apresentam prognóstico mais grave e exigem uma terapêutica anti-infecciosa mais agressiva.

Procedimentos médicos como punção, intubação, sondagem, sutura, entre outras, podem servir como porta de entrada, permitindo a penetração ou invasão de microorganismos patógenos por meio de contato, digestão e inalação.

Além de todas as intervenções propostas, é fundamental a padronização de condutas de prevenção no intraoperatório, pois as primeiras horas após a contaminação bacteriana são uma janela importantíssima para o estabelecimento da infecção e o anestesiologista tem papel fundamental nesse período: a otimização do paciente cirúrgico para a prevenção de infecções. (FERREIRA, 2009)

A Sociedade Americana de Anestesiologistas (ASA) dispõe de recomendações educativas que promovem o controle da infecção hospitalar, como a desinfecção de equipamentos utilizados em anestesia visando, principalmente, a prevenção de pneumonia relacionada à ventilação mecânica, a prevenção de infecção durante a inserção e manutenção de cateteres, recomendações para proteção do paciente imunossuprimido e recomendações para a prevenção de contaminação de medicamentos.
Link: http://www.asahq.org/publicationsAndServices/infectioncontrol.pdf

A adoção de uma atitude preventiva é responsabilidade de toda a equipe - cirurgião, anestesiologista, enfermagem e outros profissionais - com a higiene pessoal, higienização das mãos, uso de vestuário esterilizado, entre outras, e na atuação terapêutica (conhecimento farmacêutico, farmacocinético, farmacodinâmico do antibiótico e quimioterápico antimicrobiano).

O controle da dor (analgesia) e a estratégia de reposição volêmica têm relação com a infecção hospitalar?

Este primeiro passo referente à Anestesia e Infecção Hospitalar (Higienização das Mãos e Uso de Luvas) foi dividido em 10 highlights, que serão discutidos nas próximas postagens:

1. Higienização das mãos
2. Cuidados durante acesso vascular, procedimentos invasivos e bloqueios regionais
3. Controle da glicemia
4. Controle da temperatura corporal
5. Manobras de ventilação e oxigenação
6. Cuidados com os equipamentos e materiais utilizados em anestesia
7. Administração de Antibióticos – dose certa, hora certa, antibiótico certo
8. Estratégias de reposição volêmica – hidratação e transfusão
9. Administração de medicamentos
10. Analgesia Adequada no Pós-Operatório

Relembre os 10 Passos para a Anestesia Segura:
(clique na imagem para ampliar)


Referências:
TENSON T, MANKIN A. Antibiotics and the ribosome.Molecular Microbiology. 2006;59:1664-1677.
BEILIN B, SHAVIT Y, TRABEKIN E et al. The Effects of Postoperative Pain Management on Immune Response to Surgery. Anesth Analg, 2003; 97:822-827.
YOKOYAMA M, ITANO Y, KATAYAMA H. The Effects of Continuous Epidural Anesthesia and Analgesia on Stress Response and Immune Function in Patients Undergoing Radical Esophagectomy. Anesth Analg, 2005; 101:1521-1527.
NORTCLIFFE S-A, BUGGY DJ. Implications of Anesthesia for Infection and Wound Healing. International Anesthesiology Clinics. Immunomodulation and the Inflammatory Response. 2003;41(1):31-64.
FERREIRA FAPB, MARIN MLG, STRABELLI TMV, CARMONA MJC. Como o Anestesiologista Pode Contribuir para a Prevenção de Infecção no Paciente Cirúrgico. Rev Bras Anestesiol 2009; 59: 6: 756-766.

6 de janeiro de 2010

1º Passo: Higienização das Mãos e Uso de Luvas - Anestesia e Infecção Hospitalar


O primeiro passo da campanha Segurança no Período Perioperatório: 10 Passos para a Anestesia Segura é a Higienização das Mãos e Uso de Luvas.

Abaixo publicamos a peça que representa este passo inicial e outros posts estão sendo preparados, abordando temas relacionados.



Clique na imagem para ampliar

A higienização das mãos é a maneira mais simples e efetiva de reduzir e prevenir casos de infecção hospitalar!

Os hospitais estão equipados com pias e sabão em diversos locais, além dos dispensadores de álcool gel. O álcool gel é um recurso muito importante, pois tem grande eficácia. Não necessita secar as mãos, além da facilidade de acesso e manuseio do produto.

Não esqueça de higienizar as mãos:
  • Quando iniciar seu turno de trabalho;
  • Antes de manipular medicamentos;
  • Antes e depois do contato com paciente, inclusive na visita pré e pós-anestésica;
  • Entre um procedimento anestésico e outro.
Lembre-se que esta ação faz parte da campanha mundial da Organização Mundial de Saúde (OMS): “Salve vidas: higienize as mãos”, e protege não somente o paciente, mas você também!

Saúde e higiene precisam andar de mãos dadas...e limpas!

Outras ações devem ser realizadas com o intuito de prevenir infecções, como o controle da temperatura corporal, analgesia adequada, administração de antibioticoprofilaxia e cuidados na transfusão e reposição volêmica.

Fique atento aos próximos posts, com mais dicas sobre anestesia e controle de infecção hospitalar!

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