30 de novembro de 2009

“A Anestesia é segura? Tem riscos?”

Quantas vezes nos deparamos com questões como estas durante a consulta com pacientes e na avaliação pré-anestésica? Sem dúvidas, tivemos uma melhora estatística significante nas últimas décadas: nos anos 70, a mortalidade durante procedimentos anestésicos era de aproximadamente 1 paciente a cada 5.000 e atualmente, em países desenvolvidos, esta taxa está em torno de 1 para 200.000.

“Mas, os riscos atuais são aceitáveis?” Segundo o dr. Alan F. Alegre, da Universidade de Auckland, Nova Zelândia, a Segurança em Anestesia está muitas vezes relacionada aos avanços dos equipamentos e medicamentos utilizados nos procedimentos e varia baseada nas disparidades regionais sócio-econômicas e culturais, com divergências em diversos países. A África, por exemplo, possui taxa de mortalidade relacionada à anestesia bem superior à Austrália (1:150 no Togo e 1: 185.000 na Austrália).

No Brasil, a situação não é diferente. Temos Austrália e África em uma mesma região geográfica, o que torna a implementação de um Projeto Nacional de Segurança em Anestesia um desafio.

A transição demográfica que vem ocorrendo nas últimas décadas, com o aumento da expectativa de vida nos extremos de idade - recém-nascidos prematuros com cardiopatias congênitas que não sobreviviam e hoje são submetidos a procedimentos cirúrgicos e diagnósticos, e pacientes mais idosos (100 anos não é mais novidade) que, com mais patologias associadas e riscos, invertem a pirâmide etária. A previsão da OMS é de que em 2050 a população de idosos seja maior que a de jovens, fato que deve ser criteriosamente avaliado no Planejamento em saúde.

Quanto aos serviços de saúde, os procedimentos nas áreas Diagnóstica e Terapêutica (fora do Centro Cirúrgico) têm aumentado de forma significativa. Podemos até considerar atualmente que a maioria dos procedimentos fora do Centro Cirúrgico é menos invasiva quando comparada com os realizados em ambiente cirúrgico, entretanto, não podemos afirmar ser menos complexos. Muitas vezes estes ambientes de exames possuem estrutura precária e monitorização inadequada, o que pode representar aumento de riscos não somente assistenciais (eventos adversos), mas também ocupacionais, ambientais e (por que não?) jurídicos, financeiros e de imagem.

Muito tem se falado internacionalmente em Anestesia Segura: Safe Anesthesia, Sicheren Anästhesie,التخدير الآمن, 安全的麻醉, sikker anæstesi, coffre-fort anesthésie, sicuro anestesiaהרדמה בטוחה .

Mas, o que tem sido feito efetivamente para aumentar a segurança nos procedimentos anestésicos?

A Segurança em Anestesia é um Modelo a ser seguido ou um Mito?

Baseada nestas questões foi desenvolvida a Campanha: SEGURANÇA NO PERÍODO PERIOPERATÓRIO: 10 PASSOS PARA A ANESTESIA SEGURA, que tem como intuito estimular a discussão nacional acerca do assunto e criar um fórum para troca de experiências e conhecimentos: o blog ANESTESIA SEGURA.

2 comentários:

Edson Horn disse...

Vejo a segurança no ato anestésico como o resultado da priorização de fatos estatisticamente relevantes. Não tem como conduzirmos uma anestesia isenta de riscos mas a literatura e o bom senso devem guiar o investimento material e humano em segurança. De que adianta dispor de emulsão lipídica se no afam de um bloqueio impecável exageramos a dose durante a anestesia do plexo braquial ? Será que a equipe (nós, cirurgiões, circulantes e enfermeiras) tem o devido respeito pela via aérea - causa de complicações muitas vezes evitáveis? Adianta controlar com precisão PA e FC se deixarmos o paciente tremer na RPA por falta de cuidados simples como soro aquecido e paciente coberto ? Ou usar Cisatracúrio com aquele blablabla de menor liberação de histamina e injetar 2G de cefalotina em bolus desnecessariamente ? Muitos acidentes fatais ocorrem com motoristas munidos de Airbags, ESP, ABS, EBD e Imprudência. Minha opinião.

Comitê de Qualidade e Segurança - SMA disse...

Dr. Edson,

Agradecemos o envio de seu comentário, que nos parece bastante pertinente.

Quando discutimos o tema segurança na área da saúde devemos ter em mente que nem sempre são necessários grandes requintes de tecnologia, equipamentos e medicamentos moderníssimos. Muitas vezes medidas simples e baratas, mas bastante eficazes são negligenciadas e acabam por denotar eventos catastróficos para nossos pacientes.

O Projeto 10 Passos da Anestesia Segura tem justamente esta premissa: medidas simples e de baixo custo para resolver “grandes problemas”. Os passos do “Anestesia Segura” estão baseados nestas ações - a simples lavagem das mãos, a avaliação prévia criteriosa da via aérea e estado físico do paciente, a checagem dos nossos equipamentos, etc.

O debate acerca do tema Segurança em Anestesia tem se intensificado – a JOSULBRA contará com o Simpósio: Qualidade e Anestesia no dia 01 de maio de 2010.

Obrigada novamente e gostaríamos de convidá-lo a contribuir mais com o blog e com o projeto pelo www.anestesiasegura.com.

Att.
Dra. Fabiane Cardia Salman - Comitê de Qualidade e Segurança - SMA

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